Os filhos mentem aos pais? Verdade ou Mentira? O que fazer?

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Estudo internacional revela que os pais só “apanham” metade das mentiras dos filhos. Daniel Sampaio, psiquiatra, defende confronto firme quando as mentiras se repetem. E lembra que as mentiras de pais para filhos “são mais preocupantes”.Não há volta a dar e não vale a pena colocar paninhos quentes. Os filhos, por vezes, mentem aos pais. Há um estudo internacional, que resulta de várias investigações feitas sobre o assunto, que conclui que os pais só conseguem identificar 47,5% das mentiras dos filhos. A análise agora revelada demonstra, portanto, que os pais nem sempre têm o faro apurado para perceber que há mentiras nas conversas dos mais pequenos. A pesquisa, publicada no Law and Human Behavior e que envolveu 7893 adultos e 1858 crianças em 45 experiências, lembra que os adultos analisam com regularidade se os mais novos dizem ou não a verdade em vários contextos, nomeadamente em casa e na escola.
As pequenas mentiras dos filhos acontecem e são normais. “São mais preocupantes as mentiras de pais para filhos, de que ninguém fala – porque os pais devem transmitir valores e a verdade é um deles”, refere o psiquiatra Daniel Sampaio ao EDUCARE.PT. “Se os pais são verdadeiros com os filhos e usam a verdade na relação, é raro que as mentiras dos filhos sejam preocupantes”, sublinha. O que deve preocupar, na sua opinião, são as mentiras persistentes, repetidas várias vezes, e sobre o mesmo tema, seja, por exemplo, sobre o estudo, os amigos, seja sobre o consumo de álcool e drogas. “Os pais não devem ter a obsessão de andar atrás dos filhos para ver se eles faltam à verdade, mas devem confrontá-los com firmeza se a mentira se repete”. Os pais devem estar atentos, os professores também, sobretudo se as mentiras se repetem. “Na adolescência as mentiras são mais frequentes, porque há um mundo de descobertas que se quer, muitas vezes, manter privado, até por receio da reação dos pais”. O que fazer? A estratégia é sempre a mesma. Daniel Sampaio aconselha a falar com calma, ouvir com atenção, corrigir comportamentos. “Em caso de repetição, deverá haver um castigo imediato, que incida sobre a vida dos mais novos”. “Em todos os casos, a confiança interpessoal entre adultos e jovens é o caminho a seguir”, aconselha.
A relação e a comunicação entre pais e filhos são importantes neste contexto, mas nem sempre é possível detetar todas as mentiras. Se a mentira é apanhada, então é fundamental “perceber porque aconteceu e encontrar alternativas à mentira com a criança ou adolescente e as vantagens dessas alternativas”, afirma Rita Castanheira Alves, psicóloga infantojuvenil e de aconselhamento parental, ao EDUCARE.PT. Há estratégias para lidar com a situação. Comunicação saudável, conhecer bem como funcionam os mais novos, as suas reações e comportamentos, uma presença frequente e consistente dos adultos, são importantes para resolver problemas desta dimensão. “Mais do que o foco na deteção de mentiras, o trabalho preventivo de comunicação saudável, relação aberta, o adulto como modelo são estratégias eficazes e que poderão tornar a mentira uma exceção, ainda que possa inevitavelmente surgir, a par com a forma como se lida quando a mentira são aspetos fundamentais para a extinção ou reforço da mesma”, diz.
Fantasia ou experiência?
O que os pais devem fazer se confirmarem que os filhos mentem demasiadas vezes? “Antes de mais, refletir sobre que tipo de mentiras estão em causa, para que se perceba se é uma fase de fantasia ou uma ‘experiência’ de lidar com a realidade e paralelamente, acima de tudo, compreender esse sintoma: porque será que o meu filho necessita de mentir?”.
Há mentiras e mentiras. As mentiras não são todas iguais, não têm a mesma dimensão. Rita Castanheira Alves, que acaba de publicar o livro Adolescência, Os Anos da Mudança, lembra que em idades mais precoces, em que a fantasia e a imaginação estão muito presentes e a borbulhar, aparecem muitas mentiras em que a realidade se confunde facilmente com a ficção e, por vezes, surgem mentiras em que a própria criança parece quase acreditar e que são ditas quase como forma de interpretar e dar sentido à realidade “e não como uma estratégia premeditada, negativa e de recurso à mentira de forma negativa e preocupante”. E a forma como os adultos lidam com as primeiras vezes em que são confrontados com mentiras “poderá influenciar o recurso recorrente à mesma ou o abandono da estratégia e substituição por outra mais saudável e adequada”.
As crianças crescem e a mentira poderá tornar-se mais frequente. Por isso, é necessário que os pais compreendam o contexto e os motivos. Há vários aspetos que convém aprofundar. “Perceberem porque a criança precisa de recorrer a essa estratégia; frequência do uso da mesma e contextos (se é pontual, recorrente; só em casa; só na escola; com todos os adultos; com os pares; com adultos e/ou pares específicos); os pais refletirem sobre o seu próprio recurso à mentira; a forma como ela é praticada com a criança; se está a servir como fuga a uma consequência, punição; se poderá significar o receio da criança/adolescente desiludir o pai/a mãe; se é associada à fantasia ou a aspetos muito práticos e planeados; como foi trabalhada a relação entre pais e filhos quando a criança/adolescente optou por dizer a verdade mesmo sobre atos mais negativos; se houve e há ganhos com o recurso à mentira.”
Comunicação constante e saudável:
Os professores também devem estar atentos. “São agentes educativos fundamentais na deteção precoce de situações de risco, com quem a criança/adolescente está bastante tempo, pelo que a deteção destas situações como de outras precocemente poderá ser excelente contributo para que depois se possam mobilizar as estratégias necessárias por parte dos pais e até a ajuda aos mesmos na compreensão dos motivos das mentiras dos filhos. Por outro lado, são modelos, pelo que poderão ser excelentes transmissores do valor e importância da verdade e ajuda da criança/adolescente a praticarem a mesma”.
Há conselhos neste domínio. “Estimular a comunicação constante e saudável com a criança/adolescente e a relação aberta como estratégias preventivas que permitam que, em momentos de crise, opte por partilhar a verdade com os adultos, evitando danos maiores.” Rita Castanheira Alves realça que os pais devem, antes de mais, refletir sobre o seu próprio recurso à mentira, sobre a necessidade e os motivos da criança recorrer à mentira tão frequentemente e agirem nos motivos que possam estar a perturbá-la. Devem reagir de acordo com a compreensão dos motivos do recurso à mentira e com a transmissão de soluções alternativas, objetivas e como uma oportunidade para, em conjunto, praticarem a verdade em futuras situações. Devem perceber se acontece só com os pais ou com outros adultos e amigos e noutros contextos.
Os adultos devem proporcionar e estimular positivamente o recurso à verdade, mesmo quando a criança ou adolescente partilham situações e comportamentos negativos. Devem também ter cuidado para não proporcionar um contexto de medo que faça com que os mais novos se retraiam nos momentos de partilha, e devem elogiar quando é dita a verdade mesmo que seja difícil ouvi-la – nestes casos, de comportamentos ou situações negativas, é necessário um trabalho de intervenção no comportamento negativo que foi partilhado para reparar a situação e, acima de tudo, aprender com os erros.

Posted in Os Filhos Mentem Para Os Pais? at dezembro 7th, 2016. No Comments.

7 passos para ensinar o seu filho a dizer a verdade.

 

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O seu filho já está na idade do Pinóquio e não sabe o que fazer? Já prega algumas mentirinhas? Descubra quais os passos para incentivá-lo a dizer a verdade, confirmados por uma especialista.
Já se deve ter perguntado, muitas vezes, porque é que a determinada altura, os seus filhos, ainda pequenos, começam a contar mentiras. A idade do Pinóquio chega a todos, uns mais cedo que outros é verdade, mas é possível contornar a situação.  O Observador falou com uma coach parental, com formação académica em Psicologia, Sociologia e Gestão. Cristina Nogueira da Fonseca, mentora do projeto Famílias Felizes, percorre o país com vários workshop e sessões de coaching para os pais (e filhos). Com ela vamos perceber o porquê das crianças mentirem, sugerindo alguns passos para incentivá-las a dizer a verdade.
Por que é que as crianças mentem?

As crianças, tal como em tudo o resto, aprendem a mentir. Porquê? A coach parental Cristina Fonseca responde. Segundo a maior parte dos estudos, as crianças começam a dizer as suas primeiras mentiras por volta dos 3 anos, altura em que “começam a perceber que os adultos não são leitores da mente, nem têm bolas de cristal. Por isso podem começar a dar falsas verdades para se retirarem de situações que sentem poder trazer-lhes consequências negativas ou experiências desagradáveis”. As crianças começam a mentir, portanto, à medida que vão desenvolvendo as suas capacidades cognitivas e amadurecem as suas competências sociais. Não se preocupe porque todas mentem e o melhor mesmo é ensinar-lhes o caminho da honestidade. Cristina Fonseca realça que o mais importante é tentar perceber porque é que os filhos sentem necessidade de mentir, não esquecendo nunca que as crianças apreendem o código moral que é desenvolvido com e pela família e que mentem exatamente pelos mesmos motivos que os adultos.

Mas quais são os principais motivos das mentiras entre os mais pequenos?

A coach parental revela que, a maioria das vezes, as crianças mentem por impulso e dá um exemplo claro de uma situação em que isso pode acontecer. Quando alguém lhes pergunta com um tom abrasivo “fizeste isso?”, nesse momento as crianças têm tendência a dar a resposta que sabem que mais facilmente as retirará daquela situação, mentem por medo, medo dos gritos e das consequências, algumas físicas até, das pimentas na língua às palmadas, mentem para evitar fazerem coisas que não querem.” As crianças aprendem também pela imitação e pela observação constante daquilo que os pais fazem e dizem. Contudo, existem alguns truques importantes que o podem ajudar a gerir as mentiras dos seus filhos e, sobretudo, ensiná-los a dizer a verdade.Os 7 passos para incentivar os filhos a dizer a verdade

Evite os rótulos:

“Mentiroso”, “aldrabão” ou “troca-tintas”. Alguma vez se sentiu tentado a chamar ao seu filho algum destes rótulos? Se sim, Cristina Fonseca aconselha a não voltar a fazer isso e explica que as crianças vivem muito segundo os rótulos que lhes são atribuídos. Rotular o seu filho de mentiroso irá colocar sobre ele uma pressão negativa, podendo inibi-lo de tentar fazer diferente. As consequências podem mesmo ser negativas. Rotular uma criança é limitar-lhe todo o seu potencial de capacidades, se lhe dissermos que é má, não há lugar para ser boa, se lhe dissermos que é mentirosa, não há lugar para ser honesta. Os rótulos dizem às crianças o que pensamos que elas são e poderá ser terrível se elas começarem a acreditar em nós, sobretudo se não conseguirmos ver para além do que nos dá chatice.”  Por isso já sabe, seja cauteloso na escolha das palavras e lembre-se que nas idades mais tenras tudo se trata de um processo de aprendizagem.

Mantenha a calma,Gritar é a sua primeira reação?

Não vale a pena. Claro que ficará irritado, mas não pense que manter a calma significará que a sua preocupação é menor. Cristina Fonseca explica que manter a calma o ajuda a gerir os seus filhos aos invés de ser gerido por eles e acrescenta: Pense que o seu filho ainda está a aprender, se quando uma criança mente, partirmos logo para os gritos e para o castigo, estamos a perder uma excelente oportunidade para nos conectarmos e para fazermos daquele “erro” um momento de aprendizagem.” Os castigos, embora façam sentido em determinadas ocasiões, também podem provocar o medo e inibir o seu filho de dizer a verdade. “Os castigos vão manter e provavelmente aumentar as mentiras. As crianças vão fazer tudo o que conseguirem para fugirem das situações de desconforto e vão usar cada vez mais mentiras táticas, ou seja, se mentir, não vão retirar-me coisas, não vão gritar comigo, não vão enviar-me para o castigo”, afirma Cristina Fonseca.

Nada de ratoeiras:

Sabe que foi o seu filho a atirar o vaso ao chão e ainda assim pergunta-lhe “Foste tu que fizeste isso?”. Pois saiba que essa é uma das piores técnicas. A coach parental explica que fazer este tipo de perguntas (para as quais já tem uma resposta) é estar a criar rasteiras, dando-lhes nova oportunidade para mentir. Cristina Fonseca aconselha: “Diga claramente ao seu filho o que o viu a fazer, ao invés de lhe perguntar “fizeste isto ou aquilo” ou “o que é que tu fizeste?” Se eu tenho um vaso partido, se eu tenho a certeza absoluta que foi partido pelo meu filho, eu não lhe vou perguntar num tom irritado “Tu partiste o vaso?”. As crianças vão dizer tudo o que puderem para se voltarem a sentir seguras, para que aquele tom de voz desapareça. Evitar ratoeiras é precisamente isso, encarar o facto e comunicá-lo não dando espaço para que a criança sinta necessidade ou tenha espaço para mentir”, acrescenta.
Utilizar ratoeiras é estar a enganar o seu filho e dar espaço para que minta novamente.

Construa oportunidades:

Crie espaço e momentos para que ela possa dizer a verdade, mas nada de pressões, aconselha Cristina Fonseca, que explica ainda que é importante que as crianças aprendam que é possível cometer erros mas também corrigi-los,coach parental também consegue explicar o porquê de isso acontecer. Os pais acabam na maioria das vezes a gerir as suas próprias emoções, mais do que a resolver o motivo da mentira, preocupam-se no imediato em gerir a mágoa, o desconforto e a irritação que sentem quando as crianças mentem. Infelizmente, há uma tendência para gerirmos a nossa dor fazendo questão de demonstrar ao outro o quanto nos magoou.” É importante que saiba agradecer ao seu filho, diga a verdade. Ele compreenderá assim que aquela é a atitude certa a tomar.

Cultive a confiança:

Os filhos mentem, os pais mentem, no final todos mentimos, por isso é bom que seja o primeiro a dar o exemplo. Cristina Fonseca alerta para o facto de as crianças ouvirem tudo e serem muito boas a encontrar as nossas incoerências pelo que ” dizer ao seu filho que mentir é feio é muito mais coerente e tem muito mais impacto se efetivamente o seu filho puder confiar em todas as suas palavras”.

A coach parental dá exemplos claros de situações em que pode estar a mentir ao seu filho.

Se dizemos ao nosso filho que “logo brincamos” ou “no próximo fim de semana fazemos isso” quando na realidade não temos intenção, não significa que estamos a mentir também? As crianças aprendem a confiar, sentindo que os outros à sua volta são de confiança.”
Atenção às incongruências:

É importante ensinar os seus filhos a dizer a verdade, mas preste bem atenção àquilo que lhes transmite. Cristina Fonseca aconselha-o a pensar neste exemplo: “Se a senhora te perguntar, dizes que ainda tens 8 anos para continuarmos a pagar o bilhete infantil”. Parece-lhe familiar? Certamente que sim e isto remete-nos para as tais incongruências. A coach parental relembra que ao dizermos esse tipo de coisas “perdemos alguma legitimidade em fazer passar a premissa familiar da “honestidade acima de tudo”, e passamos a mensagem que mentir até é aceitável, desde que para nosso proveito”. Contudo há outro tipo de situações, mais complexas, que também são importantes. Imagine esta situação: uma mãe diz ao filho que deve sempre aceitar e agradecer um presente. A tia oferece-lhe um presente que é feio, mas a criança faz o que a mãe lhe ensinou e diz que é bonito e que gostou muito (mas está a mentir). Este exemplo levanta outras questões: como explicar à criança esta situação? Que há tipos de mentiras aceitáveis? A coach parental dá uma ajuda. Há efetivamente vários tipos de mentiras, mas as que mais utilizamos são as que servem para evitar danos nos outros, que até catalogamos como mentiras inofensivas e, depois, as que servem para evitar os nossos próprios danos. Talvez uma seja mais legítima ou aceite que a outra, mas na realidade continuam ambas a ser mentira. Creio que cada família tem a sua tabela de moralidade e decidirá o que será mais correto para o bem-estar da família”

Cultive a responsabilidade:

É necessário que explique ao seu filho a importância das palavras e dos argumentos, bem como o seu efeito nas outras pessoas. Explicar-lhe que será responsável pelas consequências da mentira, que isso pode também afetar as suas relações e que não estará sempre lá para lhe ensinar que a verdade é o caminho que ele deve escolher. Segundo Cristina Nogueira da Fonseca, deve evitar pensar que deve controlar o seu filho apenas para que ele não faça asneiras. É importante que confie e lhe dê espaço, também, para cometer o erro. É essencial alertá-lo para o facto de mentir ser feio, mas mais ainda para os benefícios de dizer a verdade e ser honesto e dar-lhe alguma responsabilidade para que ele possa geri-la. A idade do Pinóquio não é realmente fácil, até porque as crianças começam nessa altura a saber separar os contos de fadas da realidade, contudo, vale a pena tentar colocar algumas destas dicas em prática.Ah! E não se esqueça, não diga ao seu filho que se ele mentir o nariz dele vai crescer. Não caia, mais uma vez, nas ratoeiras da mentira.
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